sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Barreiras jornalísticas


Há cada coincidência! Pouco depois de ter dado uma entrevista à RTP-Madeira sobre a existência de barreiras arquitectónicas na cidade e nos edifícios em geral, recebi este e-mail:

Teste de leitura veloz (que realizam na Universidade de Salamanca, Espanha, para quem vai ingressar no curso de Linguística). Tentar ler sem errar...

O gato assim fez
O gato é fez
O gato como fez
O gato se fez
O gato mantém fez
O gato um fez
O gato anormal fez
O gato ocupado fez
O gato por fez
O gato quarenta fez
O gato segundos fez”

…….
….

Agora ler somente a terceira palavra de cada uma das frases e...

Se experimentaram, fizeram a mesma figura que eu. Perdendo tempo com uma graçola sem grande piada.
Pois a mesma sensação tive eu depois de ter visto onde encaixaram a entrevista que dei hoje à tarde, na reportagem/entrevista no telejornal da RTP-Madeira de hoje (dia 2/2/2006).
Na entrevista de hoje abordei o tema sob o ponto de vista do utilizador com mobilidade reduzida, na perspectiva do arquitecto como responsável pelo projecto de alguns dos edifícios e também da responsabilidade das autarquias no que respeita ao licenciamento e fiscalização do cumprimento do Decreto-Lei n.º 123/97, de 22 de Maio. Fiz a distinção entre as barreiras arquitectónicas no espaço público urbano, ou nos edifícios privados ou públicos e nas respectivas acessibilidades. Separei os problemas que se deparam no Centro Histórico (que por um lado tem problemas decorrentes da sua formação ao logo de centenas de anos, mas que também é mais plano que o resto do anfiteatro) e as zonas de urbanização recente com situações problemáticas decorrentes de uma gestão medíocre do espaço público por parte da autarquia.
Disse também que apesar dos arquitectos terem a responsabilidade de, em alguns edifícios recentes, existirem barreiras arquitectónicas, também é certo que sendo a autarquia permissiva em relação ao não cumprimento do DL123/97, faz com que alguns arquitectos pressionados pelos promotores procurem soluções que não contemplam a abolição das barreiras arquitectónicas.
Depois de todo aquele discurso, julgando que estava eu a ajudar à divulgação do problema, senti que do meu contributo para aquele programa, tive sido lido apenas terceira palavra de cada frase. O interesse jornalístico é perverso. De facto não interessa informar. Porque se assim fosse tinham-me convidado a debater o assunto em directo com o Sr. Vereador João Rodrigues e o representante da Associação de Deficientes Motores da Madeira. O que interessa é arranjar um contraponto que diga algumas coisas, supostamente, polémicas.

Foi pena que não tivessem passado mais alguma coisa da entrevista. Não porque trouxesse alguma novidade ou qualquer pensamento inovador, mas ao menos que se percebesse que há uma preocupação por parte dos arquitectos que vai para além de concordar em passar multas mais pesadas para dissuadir os automobilistas a não estacionar em cima do passeio.
Se lá estivesse podia também responder ao representante da associação que os arquitectos só se podem responsabilizar por cerca de 10% dos projectos que entram nas Câmaras e que a Ordem dos Arquitectos tem, sempre que possível, contribuído para a divulgação desta problemática (http://www.oasrs.org/conteudo/dossiers/dossiers1.asp)

O que é pena é que, para passar a mensagem de forma coerente e clara, ainda preciso derrubar uma série de barreiras jornalísticas.

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